quinta-feira, 24 de julho de 2008

Wonderland

Se ao olhar para o quintal, visse, além de todos os adereços já existentes, mais cinco anões, sete duendes e nove sapos, não iria estranhar. Só faltava falar, andar, saber nadar.

Mas espere!
Ouça bem, olhe bem,
há movimentação.

Os passarinhos, os insetos e o gnomo que espanta a mosca de seu nariz. O quê? A Branca de Neve está a dançar com os animaizinhos ao seu redor? Aquele coelho que corre como louco, um coelho branco, com um relógio na mão, com uma menina a segui-lo. Uma lagarta no cogumelo. Um espantalho. Um leão. Um homem de lata enferrujada. Uma casa voadora. Um caminho de esmeraldas. Quarenta ladrões e um Ali Babá. Uma carruagem de abóbora. Um príncipe falso (porque verdadeiros não existem). Uma gata borralheira. Uma sereia. Meninos voadores. Piratas e um Peter Pan.

Uma gota d’água cai em sua testa.

Todos são sugados pelo ralo da realidade. Do marasmo. Da monotonia. Do trabalho forçado. Do salário escasso. Da vida comum. Do dia-a-dia, sem nada de extraordinário, sem nenhuma aventura, sem nunca salvar o mundo, o reino, nem o vizinho. De ser escravo do relógio, da agenda, do dinheiro, do sistema, dos desejos humanos, das mazelas terrenas, de ter que comer para o corpo não perecer (e, ainda assim, um dia morrer), sem nunca ter podido voar como se tivesse asas, sem super poderes, sem máquinas do tempo ou submarinos inacreditáveis, presenciar encantos, ir a outros planetas, matar dragões, salvar donzelas ou encontrar-se com seres de outras dimensões.

Mataram todas as princesas.
Enterraram os livros de contos de fadas.
Queimaram vivos os visionários.
Compraram a dignidade do Diabo.

E lhe deram de presente um emprego na fábrica de martelos. Todos os dias, por doze horas, vai pôr o mesmo parafuso no mesmo lugar, interminavelmente.
Sempre existirão pessoas precisando de martelos. Sempre existiram pessoas colocando parafusos nos martelos. E ele poderá fazer isso até se aposentar, ficar velho e cansado de tanto trabalhar.
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imagem: Blonde Blythe

4 comentários:

Tiago.:.n disse...

Wonderland: Épico Capanemiano/Gorpeano, datado de 2008, escrito por Sur Lady Caroline. Evidencia a vida como ela é, fodeção e nada de fantasia, talvez está a razão de existirem contos, pois, ainda não acharam uma forma de impedir-nos de "viajar", molestar fantasias e criar nossos próprios céus e infernos. Botei fé!

disse...

Oi... Prazer Zé...
eu vi o link do teu blog no orkut do Fábio... dae entrei pra ve....
nus... muito 10.. "Wonderland"... viagem.... Quem sabe se todo mundo acordasse de papeh um dia... tudo não seria melhor... até um simples jardim... vira um conto de fadas... imagina aonde poderia chegar nossas vidas?!


"Sómente duas coisas são infinitas no mundo o universo e a tolice dos homens. Mais não tenho certeza quando falo do Universo!" Albert Einsten

Abrasso!

Luiz Alberto Junior disse...

Muito bom!
É uma "quase definição" do meu dia-a-dia em determinadas épocas do ano...

Beijos Sig!

Pablo Petro disse...

Existe um maneira de fugir de tudo isso! Só não encontrei essa maneira,ainda, mas na busca achei umas rugas, alguns cabelos brancos e por aí vai...
Sinto que me aproximei mais da resposta quando percebi que era invisível!
bjao e até logo