Se ao olhar para o quintal, visse, além de todos os adereços já existentes, mais cinco anões, sete duendes e nove sapos, não iria estranhar. Só faltava falar, andar, saber nadar.
Mas espere!
Ouça bem, olhe bem,
há movimentação.
Os passarinhos, os insetos e o gnomo que espanta a mosca de seu nariz. O quê? A Branca de Neve está a dançar com os animaizinhos ao seu redor? Aquele coelho que corre como louco, um coelho branco, com um relógio na mão, com uma menina a segui-lo. Uma lagarta no cogumelo. Um espantalho. Um leão. Um homem de lata enferrujada. Uma casa voadora. Um caminho de esmeraldas. Quarenta ladrões e um Ali Babá. Uma carruagem de abóbora. Um príncipe falso (porque verdadeiros não existem). Uma gata borralheira. Uma sereia. Meninos voadores. Piratas e um Peter Pan.
Uma gota d’água cai em sua testa.
Todos são sugados pelo ralo da realidade. Do marasmo. Da monotonia. Do trabalho forçado. Do salário escasso. Da vida comum. Do dia-a-dia, sem nada de extraordinário, sem nenhuma aventura, sem nunca salvar o mundo, o reino, nem o vizinho. De ser escravo do relógio, da agenda, do dinheiro, do sistema, dos desejos humanos, das mazelas terrenas, de ter que comer para o corpo não perecer (e, ainda assim, um dia morrer), sem nunca ter podido voar como se tivesse asas, sem super poderes, sem máquinas do tempo ou submarinos inacreditáveis, presenciar encantos, ir a outros planetas, matar dragões, salvar donzelas ou encontrar-se com seres de outras dimensões.
Mataram todas as princesas.
Enterraram os livros de contos de fadas.
Queimaram vivos os visionários.
Compraram a dignidade do Diabo.
E lhe deram de presente um emprego na fábrica de martelos. Todos os dias, por doze horas, vai pôr o mesmo parafuso no mesmo lugar, interminavelmente.
Sempre existirão pessoas precisando de martelos. Sempre existiram pessoas colocando parafusos nos martelos. E ele poderá fazer isso até se aposentar, ficar velho e cansado de tanto trabalhar.
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imagem: Blonde Blythe